07/02 - Casa se equilibra em encosta sobre famosa "Sunset Boulevard" na Califórnia

As pessoas que chegam a Los Angeles muitas vezes são aconselhadas pelos moradores locais a fazer de carro o percurso do Sunset Boulevard até o oceano Pacífico.

É um lindo passeio, um dos mais famosos do mundo, e serve também como iniciação ao mito da Califórnia, sem o lado negativo: você evita o congestionamento perpétuo da freeway 405, percorre rústicos cânions que ocultam casas de astros do cinema e respira a brisa marinha, a oeste de Brentwood –como se a natureza tivesse concedido um sistema gratuito de ar condicionado aos moradores da cidade.

Nesse mesmo trecho de via, o recém-chegado também pode contemplar alguns dos exemplares mais audaciosos da arquitetura da cidade. Pouco antes de Pacific Palisades fica uma colina curva e, como que agarrada a ela, uma casa que parece se equilibrar precariamente sobre hastes de concreto.

Essa casa de dois andares com revestimento em sequoia parece pender perigosamente sobre o boulevard. É uma arquitetura que grita ao mundo que "não estamos em Cleveland". O forasteiro olha para cima, pensa em terremotos e treme.

Thomas Carson, um arquiteto de Los Angeles que admira a ousadia estrutural da casa, diz que ela se tornou parte do cenário dessa famosa rota. "Todo mundo a conhece", ele diz. "É uma daquelas casas emblemáticas que você logo vê quando dirige pelo Sunset rumo ao oeste".

J. Scott Carter, também arquiteto, a compara a outra visão familiar no sul da Califórnia. "É como uma via expressa elevada, com aqueles pilares de concreto", ele diz, acrescentando que "de baixo, você não tem a sensação de que alguém viva na casa".


MISTERIOSA

A casa tem um ar de mistério. Sua forma dramática e localização remota sugerem a fortaleza de um vilão de James Bond ou de um produtor envelhecido de Hollywood que optou por uma vida reclusa.

É um exemplo notável de brutalismo, mas não é projeto de um arquiteto renomado e não aparece nas listas de grandes obras da arquitetura modernista da cidade.

Embora muita gente a conheça, diz Carson, "quase ninguém sabe quem a projetou. E menos gente ainda sabe que o cara que a projetou mora lá".

No final do ano, Robert Bridges, 60, nos recebeu em sua cozinha, bem lá no alto, sobre o Sunset Boulevard, para refletir sobre sua vida e carreira. O aposento era dividido por uma pesada coluna corbusiana e escuro como uma caverna. Enquanto conversávamos, era possível ouvir o zumbido tênue do tráfego 30 metros abaixo.

Bridges é professor de finanças do mercado imobiliário na Escola Marshall de Administração de Empresas, da Universidade do Sul da Califórnia. Mas 30 anos atrás ele era empreiteiro e arquiteto e projetou diversas casas no sul da Califórnia, inclusive aquela, tão precariamente suspensa na encosta.

"Prefiro dizer 'cuidadosamente suspensa'", diz Bridges. "Pode parecer que a posição é precária, mas não é. Do ponto de vista de engenharia, o projeto é completamente racional".

O desafio à gravidade que o projeto parece representar resultou de limitações tanto financeiras quanto arquitetônicas. Bridges comprou o terreno, íngreme e aparentemente inviável para construção, por US$ 40 mil em 1979.

Além da localização em Pacific Palisades, ele conta, o terreno só tinha mais um benefício óbvio: "Na época, era o único pelo qual eu podia pagar".

Construir envolvia grandes desafios: o gradiente, é claro, mas também o ruído do tráfego. A casa teria de abafar uma incessante sinfonia de motores em aceleração e roncos de escapamento.

E Bridges sabia que qualquer que fosse o desenho escolhido, a visibilidade seria imensa. "Não era possível usar colunas coloniais ou alguma projeção perpendicular de uma fundação convencional", disse.

OUSADIA E ESTUPIDEZ

Por uma década ele trabalhou e criou três filhos com a mulher, Janelle, enquanto juntava dinheiro e ponderava suas opções. Por fim, depois da "culminação de um longo processo de pensamento arquitetônico e estrutural", ele chegou a uma solução: concreto reforçado e pós-tensionado.

Como Bridges explica, "é basicamente a mesma tecnologia usada para construir um edifício-garagem".

Os pilares de apoio fazem contato com o solo sobre bases de concreto; sob as bases, há estacas fincadas profundamente na encosta. Em cima de tudo isso, fica a casa.

Para despejar todo o concreto necessário, ele não tinha como bancar uma construtora equipada com maquinaria pesada. O trabalho foi feito por ele e mais três homens, com a ajuda de um guindaste.

"Quando você tem 35 anos, é um momento diferente do que poderia ser em outras épocas da vida, é uma emoção", ele diz. "Mas também era um trabalho muito arriscado. Estávamos constantemente pendurados para fora da encosta, realizando façanhas de ousadia e estupidez".

Janelle Bridges ocasionalmente visitava o canteiro de obras, levando os filhos, e via seu marido suspenso sobre o vazio. "Lembro quando nos mudamos de ter um pesadelo ou dois sobre cair", ela conta.


CASA NA ÁRVORE

Apesar de ousada quando vista do Sunset Boulevard, a casa tem dupla personalidade. A entrada fica em uma rua residencial plana e parece modesta.

Mas o interior traz as marcas do método construtivo utilizado: o teto é de concreto exposto e grandes colunas pontuam os espaços de uso diário. Janelle diz que "é uma casa de homem", ainda que o marido tenha usado madeira nos pisos e paredes para torná-la mais calorosa.

O efeito é mais ou menos como estar em uma casa de árvore projetada por Robert Moses.

Robert Bridges explica que "o conceito era ter uma planta aberta, como em um loft de Nova York. Não houve planejamento muito cuidadoso quanto a detalhes elegantes do espaço interno".

Da cozinha, uma sacada se projeta por sobre a movimentada via. "Todo mundo que compra um carro novo em Los Angeles passeia com ele pelo Sunset Boulevard e por isso vejo todos os carros novos da cidade", diz Bridges na sacada. "E há os malucos, com seus carros caros, passam por aqui a mais de 160 km/h".


De noite, o boulevard se acalma. "O tráfego se reduz a zero e você tem uma plataforma de observação com vista para todo o cânion. De noite, esse lugar é incrível".

Fonte: Folha de S. Paulo

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